Doutores, de Graciliano Ramos por Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy publicado por Consultor Jurídico (1/2026).
“Na crônica Doutores, Graciliano Ramos (1892-1953) enfrentou um dos problemas mais persistentes da vida pública brasileira: a idolatria do título e o culto ao doutor como arquétipo de autoridade natural, independentemente do conteúdo real do saber ou da legitimidade do poder. O leitor encontrará o texto no Portal da Crônica Brasileira, o mais completo repositório on line sobre esse delicioso gênero literário [1]. Escrita em linguagem seca e sem qualquer concessão retórica, a crônica Doutores é menos um retrato de costumes e mais um diagnóstico cultural [2]. É nesse sentido que sugiro a leitura. É o tema dos Embargos Culturais dessa semana.
O ponto de partida do texto é simples e engenhoso. Graciliano opõe dois tipos de doutor: o do litoral e o do interior. O primeiro surge como produto da cidade grande, do diploma, da linguagem difícil, do prestígio acadêmico e do verniz civilizatório. O segundo não precisa de certificados nem de citações: exerce autoridade pela proximidade com o mando local, pela intimidação silenciosa, pela força do costume. O que muda é a aparência; a estrutura de poder permanece intacta.
A crônica não narra um episódio específico, nem mesmo constrói uma fábula tradicional. É antes uma tipologia social. Graciliano enumera, descreve, contrapõe. O leitor reconhece imediatamente as figuras que o escritor alagoano elenca. Esse reconhecimento é de algum modo desconfortável. Revela que o título de doutor opera como atalho simbólico de dominação, dispensando a verificação do mérito, da competência ou da justiça das decisões…”
